Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Mundo Não São Só Dois Países

Numa viagem de comboio, dois jovens amigos com a poesia na alma, conversam: - Não sentes que há um determinado momento em que tens mesmo que escrever? - Sim, sinto que se não escrever nesse momento, não voltarei a escrever!

O Mundo Não São Só Dois Países

Numa viagem de comboio, dois jovens amigos com a poesia na alma, conversam: - Não sentes que há um determinado momento em que tens mesmo que escrever? - Sim, sinto que se não escrever nesse momento, não voltarei a escrever!

Como Num Conto de Fadas

Como nos contos de fadas, em que as princesas dormem por anos, séculos, mesmo, até que um príncipe as desperte, há amigos que protagonizam reencontros, depois de ausências de muitos anos, como se tivessem estado juntos ontem...

Já escrevi sobre este tema, mas é exatamente sobre ele que quero escrever, como se de um bálsamo se tratasse, um bálsamo para a intranquilidade dos dias, para a instabilidade do mundo...

Os amigos que nunca se separaram, os amigos que não apagaram memórias, os amigos que não estiveram juntos, mas que não se perderam das afinidades que um dia os uniram, esses amigos riem de tudo... e de nada!, no reencontro com os dias inelutavelmente felizes; no reencontro em que se conciliam com o que verdadeiramente são, com a pureza de dias de sol e de noites de esperançoso riso, dias e noites em que ainda hoje temos o coração e em que persistentemente encontramos a chave da esperança e da vida. Muitas vezes falámos desses amigos e desses dias, repetidas vezes contámos histórias cuja graça perpetuámos e, com elas, perpetuámos na nossa memória pessoas, lugares e peripécias ímpares, que nos alimentam e aquecem as horas, todas as horas.

Como num conto de fadas, estes amigos estiveram adormecidos até ao reencontro em que despertam para o único riso que a vida não corta - o que a juventude imortalizou.

 

 

 

A (Boa) Formação e (Boa) Memória!

Entre os meus antigos alunos contam-se pessoas com vasta formação académica, excelentes profissionais (independentemente da formação), pessoas muito responsáveis, carreiras de êxito - na investigação, nas artes, no desporto, em profissões de grande projecção e em profissões que modestamente, quase de forma invisível, contribuem para o nosso conforto e tranquilidade.

Não raras vezes, cruzamo-nos em diferentes momentos da vida: primeiro, como professora e aluno; depois, como adulto e adulto, muitas vezes, amigos. Não raras vezes, tenho oportunidade de lhes pedir desculpa pelo rigor, pela exigência, por não ter visto ao primeiro relance as pérolas que são.

Com frequência, a resposta é um agradecimento.

Se escrevo hoje, é porque hoje aconteceu, mas, repito, não é raro. Destes encontros, o que quero deixar não é um registo da presunção de que eles estão certos (até porque outros pensarão de forma diferente, com ou sem razão!), mas antes colocar a ênfase na memória que têm do que possa ter sido bem feito e no facto de essa memória se sobrepor aos desaires, aos momentos menos agradáveis, aos erros que, como profissional, terei cometido.

A boa formação (e não me refiro, neste caso, à formação académica...) imprime na memória dos que a possuem a marca do reconhecimento. Se assim fosse sempre, é certo que teríamos um mundo melhor. Eu tenho um mundo feito só da personalidade destes seres humanos extraordinários a quem ensinei a reter na memória o que nos faz bem e a ignorar o que nos magoa.

Obrigada pela vossa boa formação, uma formação que é sinónimo de boa(s) memória(s)!

 

Lucidez

"Um não leitor pode [...] ter grande sucesso na sua vida. [...] mas também verificamos que a falta de leitura leva milhões de pessoas ao abismo da manipulação. As leituras fragmentadas  e velozes [...] têm como resultado o regresso dos autoritarismos, a intolerância e os discursos de ódio [...]. É mais uma demonstração da poderosíssima força da linguagem."

in Habitar o Som, Rodolfo Castro

 

Obrigada, Rodolfo Castro, pela clarividência das palavras. Nem eu, nem muitos de nós teríamos dito melhor... Gosto da tua escrita, divulgo e recomendo, como gosto das tuas ideias - já há muito que digo que não é por acaso que os regimes totalitários queimam livros e reprimem a palavra, o grande pilar da Liberdade.

Cúmplices na Loucura

Fomo-nos juntando, sem sabermos bem como... Teríamos afinidades, partilharíamos gostos, éramos parceiros no estudo, em alguns casos, éramos amigos de amigos... Hoje, nem sabemos bem o que nos juntou nesse tempo de estudantes universitários, longe de casa, na procura de referências, na errância juvenil de amores e desamores, na demanda de um caminho pessoal e profissional, na procura de equilíbrio, na vontade de viver de dia e de noite, viver, viver, viver... Um viver pleno a que pudéssemos chamar a nossa juventude, que, à semelhança do amor do poeta, queríamos  que fosse "infinita", por já sabermos que não seria "imortal", na sua doce e efémera qualidade de "chama".

Foi o que fizemos! Vivemos plenamente momentos de um consequente eu quero lá saber... Fizemo-lo consequente, sim!, fomos muitas vezes a consciência uns dos outros, preocupámo-nos uns com os outros, ajudámo-nos, aborrecemo-nos, aqui e ali, ter-nos-emos desiludido uns aos outros (a fazer jus à natureza humana!), travámos ou acelerámos à medida do que a vida nos deixava, não perdemos o rumo (enfim, ocasionalmente...), embora, como em todas as juventudes, fosse tão fácil perdê-lo... Aos olhos dos mais convencionais, não necessariamente mais velhos, talvez estivéssemos perdidos, como todos os jovens sempre estiveram... Estávamos, na verdade, a viver infinitamente, num tempo tão único e tão feliz que o gravámos no coração. Demo-nos a conhecer: qualidades, defeitos, famílias, amigos que fomos juntando, trazidos da infância, trazidos de outras cumplicidades.

Hoje, somos outros - profissão, famílias, casas... sonhos, sempre!

E somos os mesmos - somos aqueles que se conheceram e se juntaram aos poucos, sem conhecer por que razão, por que afinidades, num tempo de que trazemos o riso e a certeza de que somos amigos fora do tempo. Somos cúmplices - o que nós sabemos, e até gostamos de partilhar, em jeito de divertida memória, foi vivido num cenário irrepetível; e combatemos a nostalgia com o riso, como em tempos combatemos as convenções.

(Para todos os que pertencerem a um grupo de cúmplices na loucura!)