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O Mundo Não São Só Dois Países

Numa viagem de comboio, dois jovens amigos com a poesia na alma, conversam: - Não sentes que há um determinado momento em que tens mesmo que escrever? - Sim, sinto que se não escrever nesse momento, não voltarei a escrever!

O Mundo Não São Só Dois Países

Numa viagem de comboio, dois jovens amigos com a poesia na alma, conversam: - Não sentes que há um determinado momento em que tens mesmo que escrever? - Sim, sinto que se não escrever nesse momento, não voltarei a escrever!

Cuidado!

Vivemos tempos de desrespeito e de intolerância, tempos de um espectro assustador!

Se já os vivemos antes, se estes não são piores do que outros, se são, pelo contrário, até benévolos... se... se... se... Não sei! Hoje, reporto-me a estes: dominam as ideias capitalistas sobre as Ideias, por um lado, a pobreza é justificação para a falta de valores e a ambição justifica a falta de ética, por outro lado; impor regras dá trabalho e gera antipatias, sabendo-se que a falta de regras gera o caos; a vida alheia interessa sobremaneira; defender os próprios interesses legitima a crítica vã e até a traição... Aqui ficaria indefinidamente a enumerar vícios de uma sociedade surda e incapaz de olhar em torno.

A mim, que julgo um privilégio não ter vivido em tempos de escravatura, de guerra, de opressão, assustam-me as possibilidades que esta sociedade (em que existe, afinal, escravatura, guerra e opressão) põe à frente até dos que vivem longe das muitas guerras que nela grassam.

Como se não bastasse, esta é uma época em que rareiam os heróis, de tal forma, que os poucos que há não angariam seguidores. E, assim, prosperam ditadores!

Viver nesta época e nesta sociedade exige pertinácia, por vezes, em dose superior à que nos permitem as energias que restam depois dos dias de trabalho e da luta quotidiana. Para alguns, nos lugares mais ingratos da sociedade e do planeta, exige mais: exige a força que permite às vítimas reisitir e, com sorte, sobreviver.

Persistiremos, e alguns persistiremos mantendo a ética e os valores que nos foram transmitidos. Contudo, reconheça-se, é tarefa hercúlea!

P. S. Este meu texto, na origem, tinha uma gralha, que já corrigi,  e faltava-lhe uma frase: para mudar um mundo assim, só se houver coragem, sem rabos presos, e verdade, que também não é para todos, porque alguns têm medo dela! 

Livros A Não Perder

Tenho deixado aqui, na esperança de que a partilha possa ser útil, registo de muitas das minhas leituras favoritas... Com mais ou menos disponibilidade (que o tempo não é elástico!), vou tentar manter estes registos sobre a literatura que me vai chegando às mãos, ou que ao longo dos anos me foi sendo dada a conhecer.

Desta vez, recomendo Machado de Assis e as suas Memórias Póstumas de Brás Cubas... Machado de Assis recomenda-se como um antídoto contra a mesmice, pela ironia e pela capacidade de retratar a sociedade com tal argúcia que, mantendo-se os vícios dessa sociedade, mantém-se a actualidade dos textos. Nessa medida, imperdível é, também, O Alienista e Outros Contos. Autores como Machado de Assis, deixam-nos sempre com a ideia de que tudo o que a sua pena tocou podia ter sido escrito ontem (já não com a fina caligrafia da pena e talvez, menos ainda, com o fino critério dos visionários, entretanto, praticamente extintos!).

Do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, caberia destacar em qualquer comentário, mais ou menos extenso, mais ou menos académico, a forma como o narrador, lá do fundo da sua tumba, trata o leitor - dirige-se-nos de forma vívida, que não viva, e dirige-nos, inclusivamente, impropérios, num acréscimo de ironia que faz rir o mais sério de nós, desde que seja, de facto, leitor.

Por falar em leitores, de vez em quando passa por aqui um ou outro amigo digno desse epíteto... O que seria(m) para vocês um (ou vários)  livro(s) a não perder? 

A Esperança

Alguns de nós trabalhamos na expectativa de um português mais informado e apto a tratar de forma mais digna o Português, ou seja, acreditamos que podemos contribuir para a formação de cidadãos que, ao privilegiar o saber, tratem melhor a frequentemente vilipendiada Língua Portuguesa. Por isso, alguns de nós somos leitores e vivemos, também, na esperança de que outros se nos juntem. Este foi, certamente, o espírito que presidiu à organização do projecto Nós, Leitores, pelo Município de Oeiras, cuja sessão de Janeiro contou com a presença de Ricardo Araújo Pereira.

O resto do presente texto centra-se, naturalmente, na personalidade-leitora que é Ricardo Araújo Pereira. Confesso que me sirvo dele, sempre que possível: primeiro, na esperança de que alguém mais jovem do que eu, capaz, sabemo-lo, de conquistar públicos muito diversos, tenha o condão de, aliando sagacidade e humor, tornar leitores, entre os jovens, os que ainda não são leitores; além disso, na esperança de que a pertinência das ideias e o tom satírico em que se expressa tornem maleável a mente mais empedernida.

O que ontem ouvi, atenta que estive às palavras do autor, confirma o que sou e o que penso enquanto leitora e enquanto professora: os livros resgatam os seres de uma ignorância passível de lhes roubar experiências enriquecedoras, oportunidades, vida, enfim; ler equivale a trazer para junto de cada um de nós um mundo (ou vários) a que não é possível aceder senão pelas portas que os escritores nos abrem. Ler, já muitos o terão dito, é perigoso, para os outros; ler é muito perigoso para os que querem ludibriar, para os que querem usurpar, para os que querem dominar; ao ler, privamo-los da possibilidade de moldar o mundo ao bel-prazer da sua crueldade.

Conversas como a de ontem são quase inevitavelmente atravessadas por referências como Shakespeare, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Machado de Assis, José Mauro de Vasconcelos; são, por outro lado, o cerne de uma partilha centrada, também, em autores contemporâneos a que, como leitores, acabamos por não desejar ou não conseguir escapar, por isso, vieram à baila Luis Sepúlveda, Adília Lopes, Dulce Maria Cardoso - e nesta diversidade de épocas, estilos literários e reconhecimento público ou académico não há blasfémia, antes, justamente, diversidade, que é aquilo de que deve revestir-se o saber.

Obrigada, Ricardo Araújo Pereira, por, sem o saber, ser meu coadjuvante na profissão. Cheguei à sessão com algum atraso e a primeira frase que ouvi e que cito de memória foi "Tudo o que aprendi, aprendi nos livros." Faço minhas as suas palavras, caro Ricardo, e reitero o agradecimento.

 

Se eu não disser isto...

...pactuo - estão em negociações pelos seus direitos os enfermeiros; estiveram e voltarão, muito provavelmente, a estar em greve.

Os direitos destes senhores são os de todos nós. Se a alguém devem ser imputadas culpas por atrasos e prejuízos, eventualmente vitais, na sequência desses atrasos, é aos governantes.

Não existe sistema eficaz, na área da Saúde ou noutras, sem meios para viabilizar o bom e pleno funcionamento desse sistema.

Depauperar as condições de trabalho destes profissionais é depauperar os cuidados de que todos, em determinado momento, por razões mais ou menos sérias, necessitamos.

Se isto não é óbvio para alguém, será certamente para quem negligencia os cuidados a prestar a quem deles precisa, e esses são os que detêm cargos públicos - espero que o futuro os responsabilize por essa negligência e pelas consequências dela, já que o presente o não faz.

 

 

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