Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Mundo Não São Só Dois Países

Numa viagem de comboio, dois jovens amigos com a poesia na alma, conversam: - Não sentes que há um determinado momento em que tens mesmo que escrever? - Sim, sinto que se não escrever nesse momento, não voltarei a escrever!

O Mundo Não São Só Dois Países

Numa viagem de comboio, dois jovens amigos com a poesia na alma, conversam: - Não sentes que há um determinado momento em que tens mesmo que escrever? - Sim, sinto que se não escrever nesse momento, não voltarei a escrever!

Desafio

Fica aqui a proposta para uma reflexão, a propósito da sociedade em que vivemos e da tendência, mais ou menos instalada, para desvalorizar o mérito e as regras.

Que filho de pais humildes vestiu de outras cores a pobreza familiar (de forma honesta, que este desafio só contempla pessoas honestas...) por não cumprir regras? Que jovem se libertou da marginalidade pela indisciplina? Que escritor, pintor, atleta ou cientista foi reconhecido por trabalhar pouco?  Que universitário pobre se formou  por ter ignorado a importância da escola como lugar de esforço e de conquista?

 

Não conheço nenhum, mas fica o desafio...

Inusitado Vencedor

Gostemos ou não, concordemos ou não, Bob Dylan figura agora numa galeria em que constam Rudyard Kipling (1907), Yeats (1923), Eugene O'Neill (1936), Pearl Buck (1938), T.S. Eliot (1948), Ernest Hemingway (1956), John Steinbeck (1962), Jean-Paul Sartre (1964), Pablo Neruda (1971), Gabriel García Márquez (1982), Dario Fo(1997), José Saramago (1998), V. S. Naipaul (2001), Doris Lessing (2007), Mario Vargas Llosa (2010), Svetlana Alexijevich (2014), para falar apenas de alguns escritores que poucos dirão que não são extraordinários. A mim, faz-me pensar...

Conheço, melhor ou pior, a escrita de todos os que aqui nomeei. De Bob Dylan, conheço os poemas que transformou em músicas, os que alcançaram maior êxito (reconheço a ignorância) e não consigo equiparar às Ilustres Literaturas daqueles autores os "novos modos de expressão poética" de Dylan.

E, no entanto, é verdade, "The Times They Are a-Changin"...

O facto de Bob Dylan parecer não desejar, sequer, tomar conhecimento do prémio que lhe foi atribuído fala por si. Não creio que fosse este o efeito que a Academia desejava obter... Dylan quererá, talvez, reviver a rebeldia da década de 60. Se for coerente, recusa o prémio em dinheiro. Era de homem... rebelde! Mas... esses são tempos que já lá vão... digo eu! Veremos...

Cultura Minguante

Mario Vargas Llosa falou na apresentação do seu último livro, no Centro Cultural de Belém (já aqui escrevi sobre essa apresentação), de uma cultura cada vez menos ampla, cada vez mais superficial; uma cultura que a olhos vistos se vai reduzindo com o inelutável contributo da especialização, do facilitismo, de uma comunicação social também ela superficial. De facto, a mim parece-me que as estatísticas são incompatíveis com a Literatura, os juros bancários não são a principal preocupação da Filosofia, a Arte foge a sete pés dos corruptos. Lamentavelmente, aceita-se com brandura a ignorância, a falta de brio, a ética feita à medida dos interesses... Com efeito, saber menos dá menos trabalho e causa menos aborrecimentos: é assim que tristemente chegamos a esta sociedade em que a cultura vai minguando com a aquiescência de todos... ou quase todos!

Semelhanças

A principal semelhança entre o taxista que afirma que "as leis são como as meninas virgens, são para ser violadas..." (tive dificuldade em citar uma frase de índole tão ignóbil!) e o candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump (pobre Pato Donald, não merecia ver assim o nome enxovalhado!) é que ambos são como os comboios, são para ser postos na linha!

Além disso, tenho medo de ambos, literalmente falando - os prejuízos que podem causar as suas mentes distorcidas são enormes e reais; tenho também vergonha de ambos - neste ponto, talvez com destaque para a produção nacional, por isso mesmo, por ser nacional. Um país pequeno e empobrecido não merecia mais este empecilho selvagem a denegrir uma imagem que já não é nem muito clara, nem muito nítida.

Mario Vargas Llosa

 

A apresentação do último livro de Mario Vargas Llosa no Centro Cultural de Belém, no dia 8 de Outubro, poderia ter sido extraordinária... O Prémio Nobel da Literatura deu expressão, de forma muito eloquente, ao que todos pensamos sobre a corrupção, sobre a cultura (ou a falta dela!), sobre a desvalorização crescente de uma imprensa banalizada. O que faltou, então, a esta apresentação? Faltou respeito pelo público, que foi informado de que a apresentação começaria às 18 horas, mas às 17h50 já decorria; faltou um entrevistador atento, perspicaz e fluente; faltou um lugar digno para que o autor (que nos seus 80 anos se desembaraçou muito bem, mas que merecia mais atenção e cuidado) pudesse autografar livros e conversar com o público - fê-lo de pé ou sentado de forma improvisada. Uma vergonha que não tirou o mérito à apresentação, mas que é, ainda assim, uma vergonha, uma ignomínia a imputar à Editora Quetzal, à Fundação Francisco Manuel dos Santos (fundações, esses sorvedouros de dinheiro e ilegalidades, com os seus carros de luxo e respectivos motoristas à espera que terminem os eventos que organizam, mal...!) ou uma ignomínia a imputar a ambas???

A propósito de falta de cultura, na sala havia um bebé que, usufruindo de um direito primordial, fazia aquilo que os bebés melhor fazem: chorava (os pais importavam-se de deixar de ir à apresentação, mas não se importaram de perturbar o resto do público); uma jovem ao meu lado resolveu que comer pastilhas era imprescindível para ouvir o Prémio Nobel da Literatura, o plástico de onde tirou a pastilha também se fez ouvir, enfim, os pseudo-interessados na literatura.

Voltemos ao autor, no fundo, o mais importante: o escritor Jean-François Revel inspira o ensaio que se encontra a escrever; doou a sua biblioteca, que está distribuída por Madrid, Paris e Lima, à cidade de Arequipa, ou vai doando, já que pela dimensão e pelo afecto aos livros não consegue desfazer-se de tudo; Mandela é um exemplo incontornável para a Humanidade; o escritor italiano Claudio Magris é uma possibilidade para próximo Prémio Nobel da Literatura. Mais importante do que todas estas curiosidades, o facto de ter revelado opiniões face à vida e ao mundo que admiro e compartilho, talvez a mais significativa seja a de que a morte deveria "chegar como se de um acidente de percurso se tratasse", até que ele aconteça, a vida deve ser plena de intensidade e de objectivos. Admirável, especialmente se considerarmos que a idade física contrasta com a jovialidade das afirmações.

Pág. 1/2