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O Mundo Não São Só Dois Países

Numa viagem de comboio, dois jovens amigos com a poesia na alma, conversam: - Não sentes que há um determinado momento em que tens mesmo que escrever? - Sim, sinto que se não escrever nesse momento, não voltarei a escrever!

O Mundo Não São Só Dois Países

Numa viagem de comboio, dois jovens amigos com a poesia na alma, conversam: - Não sentes que há um determinado momento em que tens mesmo que escrever? - Sim, sinto que se não escrever nesse momento, não voltarei a escrever!

Na Fronteira - "Where is the Other Side?"

 Foto de Maria Guiomar Palmeiro.

 

Aguardar para atravessar uma fronteira é, será sempre, um momento de tensão: o recolher dos passaportes, os guardas com ar de poucos amigos, o revistar do porta-bagagem nos carros...

A alguns de nós, os menos jovens, isto faz lembrar a passagem para Espanha e o regresso, quando esperávamos conseguir chegar a casa com os caramelos...

Aqui, onde estou, a caminho de São Petersburgo, a sair da Estónia, num autocarro, faz parte de um longo processo: um hotel que se responsabiliza pelos turistas, os formulários preenchidos na internet, o visto solicitado em Lisboa, a fotografia tirada desta maneira e não daquela e sei lá que outros requisitos. Afinal, vamos sair da Europa que, com os seus mil defeitos, nos ensinou a viver e a circular livremente, pese embora tudo o que com isso sofremos...

E enquanto escrevia, eis que me encontro praticamente do lado russo...

 

De regresso à Europa, os mesmos procedimentos, a mesma demora... sobre o que se passou entretanto, escreverei mais tarde...

 

Welcome to Tallinn

Uma cidade extremamente bem preservada, merecedora do epíteto de Património Mundial da UNESCO, plena de História. Em cada recanto um motivo de interesse: cafés antigos (o Majasmokk é o mais antigo - 1864), edifícíos recuperados que albergaram guildas; muralhas, igrejas...

 

Está visto e fica aqui dito que é também uma cidade que preserva a memória dos seus dias mais negros - o Museu da Ocupação e o 23º andar do Hotel Viru, que o KGB usou como posto de observação, são exemplos da memória de dias sem liberdade. Desse tempo, chega até nós, pela boca de uma guia, um ditado que merece destaque

"You might have two thousand rubles, but you'd better have two thousand friends".

Fazia sentido, como faz sentido hoje, mas tinha um significado especialmente pragmático, num tempo em que as diferentes mercadorias valiam mais que o dinheiro, por serem uma preciosa moeda de troca.

 

Diz-se, e parece ser verdade, que uma visita a Tallinn não está completa sem uma sauna.  A mais antiga da cidade é a Kalma Sauna e vale, de facto, a pena conhecê-la: tradicional, típica, reveladora dos rituais locais da sauna, uma experiência única!

 

Para lá da muralha, para lá da estação de comboios, não muito longe do centro histórico, mas suficientemente afastada para levar a pensar "o que estamos aqui a fazer?". Um edifício sóbrio... será, não será, vapor nas vidraças das pequenas janelas no primeiro andar... é!

Uma entrada ainda mais sóbria. Artigos de última hora para vender a turistas, do género chinelos, não, não há... isso é nas saunas modernas, em edíficios modernos e em lugares onde as saunas não são típicas; ali, nada é moderno e tudo é típico. Uma funcionária com ar de matriarca, nem uma palavra de inglês; "do you have slippers to sell?". Sem obter resposta, inicia-se o pagamento, parece inevitável ir descalça para a sauna, para onde a matriarca nos conduz sem dizer palavra. Ao cimo das escadas uma sala característica dos anos... não sei... perdida no tempo... modesto balcão de recepção, lareira, cacifos de madeira... nesta sala de espera que é vestiário e antecâmara da sauna, aguardam-nos uma funcionária de ar modesto e tão silenciosa como a anterior, e ... ah! Os desejados chinelos.! A primeira funcionária compreendeu a pergunta, não respondeu porque não sabia como, passou a mensagem à segunda, que eficazmente fez o que era preciso. Silenciosa eficácia.

Passos seguintes? Perceber, por imitaçao e com algumas ajudas (também silenciosas, numa comunicação sem palavras) o que fazer. Ritual evidente - nenhuma roupa no corpo; tanque de água gelada (essa é fácil!); chuveiros não constituem novidade; recipientes com cremes são claramente objectos pessoais das senhoras presentes; alguidares de plástico com água e ramos de... bétula? Hummm... aqui começa o quebra-cabeças. Foi preciso alguma observação para compreendermos que devíamos flagelar-nos com eles, depois de molhados. Aos nossos olhos de europeus do sul, isto é tão estranho como a senhora nua, como todas nós, mas com um chapéu de feltro na cabeça ou as muitas horas que percebemos que ali passam a levar tareias de bétula, a ingerir água, a entrar e sair do compartimento da sauna para mergulhar em água gelada, a hidratar o corpo com cremes e... a ajudar turistas a sair da ignorância. Também tivemos direito ao belo raminho de bétula. Os chinelos? Eram umas sabrinas de plástico gentilmente esquecidas por alguém, e estavam limpas. Os homens? Só por acaso, aqui, ficam do outro lado do edifício. 

Uma experiência a lembrar Kuopio, na Finlândia, pela especificidade... E, no entanto, em nada se assemelham. Saunas a Norte e a Leste - "todas diferentes, todas especiais"!

Um Ser Viajante...

...é aquele que entre viagens, nos intervalos intencionalmente criados para preparar a viagem seguinte, pensa em tudo o resto! O mundo não é só um país, nem dois...

Foi assim que, no final da 41ª interrupção, cheguei ao 42º país, dos não sei quantos (196...) que há no mundo!

 

Livro Especial, Edição Especial...

 

Esta é a edição do livro em Tetum que resultou em algumas das actividades mais interessantes que já fiz com alunos - o livro, uma oferta de alguns alunos de Timor (muitos especiais!) e de duas das professoras mais competentes que conheço (minhas amigas!); as actividades, pensadas para ensinar o valor da leitura, da partilha do saber e do amor.

Díli, Maubara, Liquiçá... na semana passada, Ouressa - tantos alunos envolvidos, tantas brincadeiras e ensinamentos!

"Somos responsáveis por aqueles que cativamos", como somos responsáveis pelas pessoas e projectos que abraçamos.

 

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